Artefato Literário
Tal como a estrela imaginária que habita cada um, guia-nos, ó Musa.
quinta-feira, 30 de março de 2017
Foi
Pegou suas coisas em ritmo alucinante, contando cada segundo gasto em seus movimentos rápidos. Estava em início de fuga e tinha a certeza: estavam à sua procura.
Suava, seus pensamentos velozmente incompreensíveis a qualquer um que pudesse se aventurar por eles, sua respiração agora inevitavelmente produzindo sons agudos em sua garganta. Não reconheceu-se ao avistar o espelho antes de ir. Mesmo assim reuniu forças, abriu a porta da frente e não sabia mais onde estava.
Pulou o muro de concreto e aço, correu por entre as ruínas do museu carbonizado, cruzou os céus da cidade, passou dias nos ouvidos da sabedoria, festejou sob o teto quebradiço e até soluçou ao lado do pulsante partido. Não sabia do que se tratava tudo aquilo, porém.
Tudo acontece num turbilhão de sentidos onde a fuga ainda é eixo principal. Não há lugar seguro. "És hoje a caça", repetia a si. A perseguição perseguia com afinco, e a sirene de sua violência era uma realidade hoje à noite. Escondia-se como rato na treva, sem a certeza da sobrevivência e com a agonia de não ter como dormir sabendo poder ser estripado pelas unhas da desgraça em meio a pesadelos incontroláveis.
Chegou então a seu destino, mas não era o que esperava. Na verdade estava tudo muito confuso, pois nunca sentira-se tão em casa e sabia exatamente onde estava. Mas o antigo espelho encapado, presente em sua infância, não parecia ser seu objetivo concreto.
Olhou-se. Acabou a perseguição.
(30/08/2013)
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